quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Isadora

Ela tinha por volta de uns vinte e cinco anos, todos os dias eu a via passar apressada naqueles vestidos estampados, em rumo ao prédio onde ela cursava publicidade e propaganda. E eu ali, só ficava sentado no meu banco, olhando por cima dos meus óculos fingindo ler um livro. Ela não reparava que eu estava ali, que eu construí uma rotina onde dedicava sete segundos do meu dia só para vê-la passar. Todos os dias eu estava ali, olhando, sentado, olhando, parado. Esperando que um dia talvez, ela viesse me perguntar as horas, quem sabe, ela não usava relógio mesmo. Pensei em comprar um e presenteá-la em um dia qualquer, mas ela ia me achar no mínimo maluco. Já pensei em esbarrar com um copo de café em cima dela, mas isso iria chateá-la. Pensei em ajudá-la a catar os livros, mas ela nem andava com livros nas mãos. Pensei em mandar bilhetinhos anônimos todos os dias, mas eu nem saberia o que escrever. Já pensei em tanta coisa, mas nada concretamente bom para fazer com que ela pergunte meu nome e venha a se interessar pelo o que eu faço, pelas coisas que eu gosto...

- Olha, ela tá vindo, corre lá, fala com ela.
- Ela tá com muita pressa, vou atrapalhar.
- Mano, como ela vai saber que você existe se você se esconde atrás desse livro e só deixa os olhos de fora?
- Me deixa, Inácio, não é hoje o dia. Vamos embora, ela já passou.
- Cara, você é um otário. Um otário, Theodor, um otário!

Inácio tinha razão, eu sou um otário. Um otário bobo que só sabe criar planinhos babacas que nunca darão certo. Um otário. Dia após dia eu me sento naquele banco, que acredito eu, ser um lugar estratégico. Alimento a esperança de que em uma manhã ela vai se sentar ali para respirar um pouco ao meu lado, dividir o meu ar, descansar um bocadinho antes de sair esbaforida pelo prédio adentro, e nesse dia, eu iria puxar um assunto. Não seria inconveniente, não atrapalharia o caminho dela, afinal ela que iria sentar no meu banco. Aí tudo iria mudar. Mas enquanto isso eu só fico aqui, olhando, esperando.

Eu tenho uma puta raiva de mim, porque não quero chegar e dar um "oi, me chamo Theodor", eu não quero não, eu não consigo. Minha garganta fecha só de pensar. Já inventei milhões de diálogos, treinei diversas vezes em frente ao espelho, mas não dá. Não dá. Sempre fui o tipo de cara que nunca se deu muito bem com essa tal arte da sedução, eu não sei lidar com isso. Eu só queria ter uma oportunidade de conversar com ela, que acontecesse naturalmente, queria que essa porra de destino ajudasse. Mas eu nunca fui o tipo de cara que o destino gosta de ajudar. E aí que eu fico nessa, sentado e esperando.

- Vou te ajudar, mano.
- Ajudar em que, Inácio? - Respondi sem tirar os olhos de um roteiro que estava lendo.
- Vou lá falar com aquela garota de publicidade.
- Pelo que eu me lembro não te pedi ajuda nenhuma. - Respondi sem tirar os olhos do papel.
- Qual é, a gente inventa alguma coisa pra puxar assunto e tal, não vai ter errada.
- Ah é mesmo, espertão? O que o Senhor genialidade vai fazer?
- Sei lá, dizer que a gente tá querendo saber uns métodos bons de divulgação do nosso curta metragem, sei lá, alguma coisa relacionada ao que ela faz.
- Não mesmo. Deixa isso pra lá.
- Como deixa pra lá, Theodor? Se somar todos os segundos que você perdeu naquele banco, sentado, seria igual ao tempo médio de um namoro de um casal normal, E ISSO É MUITO TEMPO!
- Não adianta, Inácio. Esquece isso, é perda de tempo...

Não tinha jeito de me fazer mudar de ideia, eu não iria forçar nada e ficar parecendo um idiota -maior ainda-. Inácio era impulsivo e fazia as coisas como bem entendia, mas graças aos céus o convenci a desistir daqueles planos que cheiravam a fracasso e vergonha só de ouvir.
Os dias foram passando sempre da mesma forma. Aqueles meus sete sagrados segundos sentado naquele banco, os trabalhos da faculdade, as provas, os projetos... Até que o dia mais trágico da minha vida chegou.

Eu estava sentado no meu banco, ela estava uma hora atrasada. Provavelmente não iria aparecer. Como eu só teria aula nos os dois últimos tempos, resolvi ficar por ali mesmo estudando para a prova do dia seguinte. Daí que ela aparece. Vem caminhando como se estivesse procurando por alguém. Olha para o meu banco e vem em minha direção. Meu coração começou a pular descompassadamente, achei que ele ia sair pela boca e cair no chão. Rapidamente tentei me ajeitar. Ela veio, veio, veio e sentou do meu lado. Santo Deus, isso estava mesmo acontecendo? Do jeito que eu imaginei todo esse tempo? Quando eu estava controlando a respiração e já ia abrindo a boca pra falar com ela, eis que ela fala primeiro:

- Oi, você viu um rapaz alto, bem branquinho do cabelo preto passando por aqui?
- Hã, er. Branquinho? - Queria morrer logo depois que abri a boca pra falar isso.
- É, bem branquinho. - Ela sorriu. Devia estar pensando que eu tinha algum tipo de retardo.
- É, bem, não vi não.
- Olha, ele está vindo ali! - Ela se levantou fazendo sinal para o tal sujeito branquinho.

Ele chegou e não a beijou. Ótimo, não eram namorados.

- Fui ao banheiro e quando saí não consegui te encontrar. Acabei me perdendo... Esse lugar é enorme. - O cara falou enquanto se sentava entre mim e ela.
- Tudo bem. - Ela deu um sorriso enorme e colocou a mão na coxa dele. Não estavam mais parecendo ser somente amigos. - Você disse que queria me falar algo, mas aí foi ao banheiro... O que era?
- Isadora, é, eu queria esperar, fazer algo mais elaborado, mas vai ser assim mesmo. Eu te amo e quero passar o resto da minha vida ao seu lado. Eu vou fazer de tudo pra ser o homem por quem você vai se apaixonar cada vez mais todos os dias. Eu detesto gatos, mas por você eu aprenderia a conviver com eles em uma casa, a nossa casa. Eu quero você pra ser minha esposa. Quer casar comigo? - Disparou ele. Nem ao menos respirou no meio das frases.

Tossi, tive uma crise de tosse, na verdade. Eles me olharam tipo "Você está ouvindo nossa conversa?". Peguei minhas coisas e saí dali o mais depressa que pude. Puta que pariu, ele a pediu em casamento ali, no pátio da faculdade, ali no meu banco, no banco onde a minha história com ela iria começar. Ali do meu lado. Fui me afastando, sem pernas, sem ar, sem sentir o chão. E tudo o que eu tinha planejado? E o futuro que eu imaginei para nós dois tantas vezes? Ela vai aceitar se casar com o cara que não gosta de gatos. Eu gosto de gatos, ela podia se casar comigo. Olhei para trás e ela estava com o braço direito esticado, olhando o tal do anel provavelmente muito brilhante. Estava chorando ao mesmo tempo que ria. Estava tão linda e parecia indescritivelmente feliz. Os dois levantaram e se beijaram embalados em um abraço. Ajeitei minha mochila no ombro, os livros no braço e fui para minha sala.

Daquele dia em diante eu continuei a vendo todos os dias, mas nunca mais tornei a sentar naquele banco. Um ano depois eu me formei, nunca mais a vi. A vida foi passando, conheci outras garotas, namorei três (só Deus sabe como) e acabei me casando com a terceira. Comprei uma gata e a nomeei Isa. Amava minha esposa, mas no fundo, no fundo, nunca fui capaz de esquecer Isadora.

Um comentário:

  1. Pois é, né? Bem dizem que os amores 'platônicos' são os mais difíceis de esquecer! Como eles não acontecem, eles não geram os defeitos, nem os desgastes! Ele nunca esqueceu a imagem boa e perfeita que tinha de Isadora, justamente porque ela não teve nem a chance de mostrar que nunca fora perfeita!
    Beijo!

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